BLOG DO TOB | 03/10/2016
O VELHO NO SEU TEMPO


Fico observando seus gestos e o olhar se dirigindo para o horizonte, acompanho na mesma direção e vemos ao longe, acho que uns três quilômetros, casas com suas chaminés esfumaçando, com certeza fogões acesos nestas noites frias. São os Hermanos argentinos do outro lado da barranca do Rio Uruguai. Estávamos perto da divisa com a Argentina, e essa proximidade de povos diferentes nos traz curiosidades dos diferentes costumes e muitas coisas, outras nem tanto. Conta-me o velho senhor que em determinada época contrabandeavam produtos dos argentinos, eram basicamente farinhas e banhas. E gerdamia, ou policiais deles vinham em procura desses produtos contrabandeados, e quando alguém avisava os guardas argentinos surgiam, muitas vezes à noite, procuravam na maior cara de pau esses produtos e os levam embora. Sujeitos a outras ações já que não tinham segurança do lado nosso, e não era possível já que era produtos ilegais. Quando isso acontecia, todos corriam com suas latas de banha e farinha, escondendo no mato, com medo das ações deles, da guarda argentina.
Esse é um fato histórico de uma época diferente, assim fico imaginando o cenário desses acontecimentos que o velho relatava. Gostava de ouvir essas histórias antigas, nos faz reportar à essa época, assim sabendo o que acontecia podemos reportar para hoje, quem sabe errar menos, além das minhas curiosidades de ouvir de forma pausada os fatos que ele viveu.
Tomando seu chimarrão entre uma frase e outras, vamos passando o dia. Disse que era de uma outra região onde havia requisitos da guerra dos farrapos, também da segunda guerra mundial, sua idade trazia na memória o que viveu, um período em que muitos sobreviventes escapavam dos combates e vinha naquela região das missões onde morava antigamente, em busca de abrigos para fugir dos inimigos. Haviam, portanto, muitos conflitos ainda em andamento, muito perigoso para os que tinham suas residências longe de uma civilização maior. Atendiam aos soldados maltrapilhos dando-lhe comida e roupa recomendando que partissem logo, assim alimentados partiam para outros combates sem saber onde. Era em seu tempo, à época desses acontecimentos em lugares em que podiam se movimentar a cavalo, carretas e muitas vezes a pé. Ficamos em silêncio em muitos momentos, assim a memória dele procura outros eventos vividos nos velhos tempos. De vez em quando passa algum vizinho pela estrada de chão batido caminhando a pé na direção do rio, cumprimenta-nos seguindo seu caminho, assim o dia passa e vem à noite, um jantar é nos oferecido, jantar a base de carne de porco feito na banha branca dos argentinos, com pedaços de carne de gado.
Gostava de ouvir as histórias do velho senhor quando eu passava alguns dias em visita aos parentes. É curioso, mas quem gosta de ler histórias ouve esses fatos também da forma contada cheia de detalhes nos faz viajar no tempo, assim pensamos como será o nosso tempo vivido, como será o nosso futuro?


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